Por Natureza em Gotas

Nos últimos anos, o cogumelo Juba de Leão (Hericium erinaceus) tornou-se um dos ingredientes naturais mais estudados na área da neurociência. Muito conhecido por seu potencial de suporte à saúde cerebral, ele desperta interesse crescente entre pesquisadores que investigam memória, aprendizado, neuroplasticidade e atenção.
Com esse crescimento, também surgiu uma pergunta frequente:
Será que o Juba de Leão pode ajudar pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)?
A resposta baseada na ciência é mais interessante do que simplesmente dizer “sim” ou “não”.
Atualmente, não existem evidências clínicas suficientes para afirmar que o Juba de Leão trate ou substitua terapias para TDAH. Porém, há um conjunto crescente de estudos mostrando mecanismos biológicos que justificam novas pesquisas nessa área.
Neste artigo, reunimos as principais evidências científicas disponíveis.
O que é o TDAH?
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado principalmente por:
- dificuldade de manter a atenção;
- distração frequente;
- impulsividade;
- hiperatividade (em parte dos pacientes);
- alterações nas funções executivas, como planejamento, organização e memória de trabalho.
Diversos fatores participam da fisiopatologia do TDAH, incluindo alterações em circuitos cerebrais que utilizam principalmente:
- dopamina;
- noradrenalina;
- glutamato;
- processos neuroinflamatórios;
- desenvolvimento e conectividade neuronal.
É justamente nesse último grupo que a Juba de Leão vem despertando grande interesse científico.
O que torna o Juba de Leão diferente?
Ao contrário de muitos cogumelos estudados principalmente pelos beta-glucanos, a Juba de Leão possui compostos bioativos únicos.
Entre eles destacam-se:
- hericenonas (predominantemente encontradas no corpo de frutificação);
- erinacinas (principalmente no micélio);
- beta-glucanas;
- compostos fenólicos;
- polissacarídeos bioativos.
Os pesquisadores acreditam que parte desses compostos apresenta capacidade de modular processos envolvidos na saúde do sistema nervoso.
A relação com o NGF: um dos maiores diferenciais
Uma das descobertas mais importantes envolvendo o Juba de Leão foi sua interação com o NGF (Nerve Growth Factor).
O NGF é uma proteína essencial para:
- sobrevivência dos neurônios;
- crescimento neuronal;
- diferenciação celular;
- formação de novas conexões sinápticas;
- manutenção da plasticidade cerebral.
Modelos experimentais mostram que alguns compostos do Juba de Leão podem estimular vias relacionadas à produção de NGF e também aumentar fatores neurotróficos como o BDNF. Esses mecanismos são considerados relevantes para aprendizagem e adaptação neuronal, embora sua tradução para benefícios clínicos em pessoas com TDAH ainda não tenha sido demonstrada.
Neuroplasticidade: por que isso importa?
O cérebro está constantemente formando novas conexões.
Esse processo recebe o nome de neuroplasticidade.
Quanto melhor essa capacidade, maior tende a ser a eficiência na aprendizagem, adaptação e consolidação de memórias.
Estudos pré-clínicos demonstram que a Juba de Leão pode favorecer:
- crescimento de neuritos;
- diferenciação neuronal;
- regeneração após lesões experimentais;
- aumento de fatores neurotróficos;
- melhora da comunicação entre neurônios.
Esses resultados ajudaram a tornar o cogumelo um dos mais pesquisados na área de neuroproteção. Entretanto, ainda são necessários estudos clínicos robustos para confirmar esses efeitos em humanos e especificamente em pessoas com TDAH.
E quanto ao foco e à atenção?
Aqui é importante separar expectativa de evidência científica.
Até o momento:
Não existem ensaios clínicos robustos demonstrando que o Juba de Leão melhora sintomas de TDAH.
Por outro lado, estudos realizados em adultos saudáveis e em indivíduos com comprometimento cognitivo leve observaram sinais de melhora em alguns parâmetros cognitivos, incluindo desempenho em testes de memória, velocidade de processamento e determinadas funções cognitivas. Os resultados, porém, são heterogêneos e baseados em amostras pequenas.
Isso significa que:
- existe plausibilidade biológica;
- existem resultados promissores;
- ainda faltam estudos específicos para TDAH.

Neuroinflamação: um possível elo
Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar a participação da inflamação de baixo grau em diversos transtornos neurológicos.
Embora o TDAH seja multifatorial, alguns estudos sugerem participação de mecanismos inflamatórios em parte dos pacientes.
Em modelos experimentais, o Juba de Leão demonstrou potencial para:
- modular citocinas inflamatórias;
- reduzir estresse oxidativo;
- proteger neurônios contra danos experimentais;
- modular vias antioxidantes.
Esses mecanismos ainda estão sendo investigados e não significam que o cogumelo trate doenças neurológicas.
O eixo intestino-cérebro também pode participar?
Outro tema bastante estudado é a comunicação entre microbiota intestinal e sistema nervoso.
Pesquisas recentes observaram que a suplementação com Juba de Leão pode favorecer maior diversidade da microbiota e aumentar bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), associados à saúde intestinal e cerebral. Esse é um campo emergente de pesquisa e ainda não permite concluir benefícios clínicos para TDAH.
O que dizem as revisões sistemáticas?
A revisão sistemática publicada em 2025 na Frontiers in Nutrition reuniu estudos clínicos e pré-clínicos envolvendo Hericium erinaceus.
Os autores concluíram que o cogumelo apresenta evidências promissoras para:
- neuroproteção;
- suporte à função cognitiva;
- promoção de fatores neurotróficos;
- melhora de sintomas relacionados ao humor em alguns estudos;
- modulação da microbiota intestinal.
Ao mesmo tempo, destacam que os estudos clínicos disponíveis ainda são limitados em número, tamanho das amostras e padronização dos extratos, sendo necessárias pesquisas maiores antes de estabelecer recomendações clínicas específicas.
Então pessoas com TDAH podem utilizar?
Essa decisão deve sempre ser individualizada e orientada por um profissional de saúde.
Atualmente:
- O Juba de Leão não é tratamento para TDAH;
- não substitui medicamentos prescritos;
- não substitui acompanhamento médico ou psicológico;
- pode ser objeto de interesse científico por seu potencial de suporte à saúde cerebral, mas ainda carece de evidências específicas para essa condição.
Conclusão
A ciência sobre o Juba de Leão evoluiu rapidamente na última década.
Hoje sabemos que esse cogumelo contém compostos bioativos capazes de interagir com mecanismos relacionados à neuroplasticidade, fatores neurotróficos, estresse oxidativo e comunicação intestino-cérebro.
Esses mecanismos tornam o Hericium erinaceus um dos cogumelos mais promissores da neurociência moderna.
Entretanto, quando falamos especificamente em TDAH, a evidência clínica ainda é insuficiente para afirmar eficácia terapêutica.
O cenário atual pode ser resumido em uma frase:
Existe uma base biológica bastante promissora e estudos pré-clínicos consistentes, mas ainda são necessários ensaios clínicos de alta qualidade para confirmar benefícios específicos em pessoas com TDAH.
Enquanto isso, a melhor abordagem continua sendo interpretar os resultados científicos com equilíbrio: valorizando o potencial da pesquisa sem extrapolar aquilo que as evidências realmente demonstram.
Referências científicas
- Menon A, Jalal A, Arshad Z, et al. Benefits, side effects, and uses of Hericium erinaceus as a supplement: a systematic review. Frontiers in Nutrition. 2025;12:1641246.
- Spangenberg ET, Moneypenny A, Bozzo GG, Perreault ML. Unveiling the role of erinacines in the neuroprotective effects of Hericium erinaceus: a systematic review in preclinical models. Frontiers in Pharmacology. 2025.
- Mori K, Inatomi S, Ouchi K, et al. Improving Mild Cognitive Impairment with Hericium erinaceus. Phytotherapy Research. 2009.
- Vigna L, et al. Acute and chronic effects of Hericium erinaceus supplementation on cognitive function, stress and mood in young adults. Nutrients. 2023.
- Friedman M. Chemistry, Nutrition and Health-Promoting Properties of Hericium erinaceus. Journal of Agricultural and Food Chemistry. 2015.
- Ryu S, et al. Neurotrophic effects of erinacines and hericenones from Hericium erinaceus: experimental evidence and future perspectives. International Journal of Molecular Sciences.
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